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Fabiana Matheus: “Direitos estão indo para o ralo”

02/04/2018

Liderança da “Chapa do Participante”, de oposição, em entrevista ao 247 Fabiana Cristina Meneguele Matheus denuncia manobras contábeis da atual diretoria da Funcef para encobrir um déficit crescente e acusa os atuais gestores de fazer opções de investimentos que causaram prejuízo sem necessidade, como a excessiva concentração de investimentos em renda fixa. “A Previ manteve sua posição na renda variável e soube aguardar o bom momento da Bolsa e de outros investimentos, como as ações da Vale, “afirma, referindo-se ao Fundo que é referência no país.

Primeira mulher a ocupar a coordenação da Comissão Executiva dos Empregados da Caixa, órgão responsável pelas negociações trabalhistas com o banco, Fabiana nasceu em Bauru, a 324 quilômetros de São Paulo. Entrou no banco em 1989 e fez sua carreira atuando nas agências como caixa executivo e gerente de relacionamento. Na Funcef, foi eleita conselheira deliberativa por dois mandatos: 2006/2008 e 2008/2012.

Ela também foi presidente da Associação do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Apcef/SP) também por dois mandatos e diretora de Administração e Finanças da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae) de 2011/2016. Hoje, é diretora de Saúde e Previdência na FENAE. Sua entrevista, concedida momentos antes do início da votação, as 11 da manhã:

BRASIL 247 – O déficit da Funcef é assunto permanente dos jornais. Quais são os números reais?

FABIANA – A atual gestão vem dizendo que conseguiu reduzir o déficit mas a verdade é que, de junho de 2014 até dezembro de 2017, esse déficit aumentou 50%, de R$ 4,2 bilhões para R$ 6,5 bilhões. Além das dificuldades da conjuntura, que tanto quiseram negar, houve falhas de gestão que comprometeram a recuperação dos resultados.

QUAIS FALHAS A ATUAL GESTÃO COMETEU?

Os exemplos são muitos mas podemos citar a excessiva concentração de investimentos em renda fixa. Somente no Novo Plano – formado em sua maioria pelos trabalhadores da ativa – cerca de 70% dos ativos estão em títulos públicos. Com a inflação em queda, a rentabilidade é a pior diante dos demais segmentos. Enquanto isso, somente 20% dos investimentos estão na renda variável e 2,7%, nos investimentos estruturados, como os chamados Fundos de Investimento em Participações, os FIPs. Acontece os estruturados apresentaram a maior rentabilidade de todas (36,53%), enquanto a renda variável obteve 21,19% e a renda fixa apenas 9,62%.

OS OUTROS FUNDOS COMETERAM O MESMO ERRO?

No setor, todos têm a Previ, do Banco do Brasil, como uma referência e lá foi bem diferente. Para ter uma ideia, no acumulado de janeiro a outubro de 2017, o índice Bovespa foi cerca de 15 vezes maior que o INPC (inflação). Com isso, a Previ recuperou grande parte dos resultados e já se prepara para buscar o superávit no início deste ano. Já a Funcef amarga uma recuperação mais lenta.

E OS EQUACIONAMENTOS, COMO SE INSEREM NESSE CONTEXTO?

A diretoria da Funcef tenta disfarçar o fato de que grande parte do deficit já está sendo descontada dos participantes por meio dos planos de equacionamento. Nos anos anteriores, a Funcef optou por equacionar o deficit pelo mínimo. Uma medida populista que prometia reduzir os impactos sobre o participante, mas na verdade, o que vimos é que a conta foi se acumulando. Agora, no final da gestão, na tentativa de reduzir o peso do deficit no balanço de 2017, ao contrário dos anos anteriores, a diretoria da fundação resolveu fazer o equacionamento integral relativo a 2016. O deficit acumulado é de R$ 6,5 bilhões, mas o montante em equacionamento chega a R$ 10, 6 bilhões.

OUTRAS CHAPAS FALAM EM EXTINGUIR BENEFÍCIOS PARA BUSCAR EQUILIBRAR OS PLANOS. COMO VOCÊ VÊ ESSA QUESTÃO?

Mais uma vez, vemos outros candidatos dizendo que o que traz déficit para os planos da Funcef são os benefícios dos trabalhadores, o que é um grande equívoco. O Fundo de Revisão de Benefícios (FRB), por exemplo, está previsto no regulamento e permite dar aumento real aos aposentados quando há excedente financeiro. Se o benefícios só são concedidos quando há excedente, é claro que ele não gera déficit. Daqui a pouco vão dizer que é melhor reduzir os valores dos benefícios para reduzir o déficit? Só falta essa. Por isso, defendo com unhas e dentes o FRB, o FAB e os demais benefícios que favorecem os participantes. Não é tirando dos trabalhadores que se administra um fundo de pensão.

OUTRO DEBATE ENVOLVE OS NÚMEROS DO CONTENCIOSO. QUAL A IMPORTANCIA DESSA DISCUSSÃO?

Isoladamente, o contencioso judicial continua sendo a maior causa do déficit da Funcef, mesmo após o balanço de 2017, quando a atual diretoria fez uma reclassificação contábil dos valores. Já havíamos alertado sobre a possibilidade desta manobra dos diretores, às vésperas das eleições. Até novembro do ano passado o valor provisionado era de R$ 2,4 bilhões. Em 1 mês, para fechar o balanço, a Funcef tirou 1 bilhão da conta e reclassificou este valor como perda possível. Uma manobra clara para dizer que a conta foi reduzida. Mas não foi. Daqui alguns anos essa conta vai aparecer para o participante pagar. A verdade é que a dívida é da Caixa, ela não paga, os atuais diretores não cobram e quem paga é o participante.

POR QUE OS FUNCIONÁRIOS DEVEM PARTICIPAR PASSIVAMENTE DAS ELEIÇÒES?

Eleger um representante do participante para a Diretoria Executiva da Funcef foi uma conquista recente, depois de muita luta dos empregados. Hoje este direito está ameaçado. Há uma série de projetos que querem acabar com a representação dos participantes nos fundos de pensão. Um deles é o PLP 268. Por isso é extremamente importante que os participantes votem para garantir nossa representação e a gestão sobre o nosso patrimônio. Porque os R$ 60 bilhões que estão lá na Funcef são de cada um de nós, dos 136 mil participantes.

SE A CHAPA DO PARTICIPANTE FOR VITORIOSA, QUAIS BENEFÍCIOS ESTARÃO ASSEGURADOS AOS MAIS DE 130 0000 PARTICIPANTES DA FUNCEF??

Um dos pilares das nossas propostas é a manutenção e ampliação de direitos. A gente observa que nos últimos anos os direitos dos participantes estão indo pelo ralo. A gota d’água foi a quebra da paridade no plano REG/Replan não Saldado, por meio de um Termo de Ajustamento de Conduta TAC), assinado por toda diretoria – eleita e indicada. Esse absurdo abriu um precedente perigosíssimo para que a mesma coisa aconteça nos outros planos. A paridade em todos os planos é inegociável e vamos buscar, na Justiça, anular os efeitos deste documento e impedir que os outros planos sejam prejudicados. As chapas concorrentes já sinalizaram que não vão defender o Fundo de Acumulação de Benefícios (FAB) e o Fundo de Revisão de Benefícios. Nós vamos e é nosso compromisso com os participantes.

 

Reproduzimos a entrevista do site Brasil 247

Disponível em: https://goo.gl/AYyHcW